quinta-feira, 23 de junho de 2016

O desejo de compor se sobrepõe a qualquer cenário fonográfico


Recentemente Roger Daltrey, vocalista do The Who, declarou não ter interesse em lançar mais nenhuma música inédita. Há mais de 50 anos no microfone da banda inglesa, o cantor justifica tal intenção baseado no cenário fonográfico atual, onde a venda de álbuns físicos representa uma fatia mínima do bolo total de que consome música.  “Não há mais indústria musical. Precisaríamos pagar para gravar e não haveria garantia de retorno, pois os negócios não existem. Não pretendo gastar dinheiro para dar meu trabalho de graça. Tenho outras coisas em que poderia investir", declarou o cantor de 72 anos.

Há alguns anos, ao retomar as atividades em palco com sua banda, Twisted Sister, o vocalista Dee Snider afirmou que seus fãs não querem material novo, que apenam curtem os clássicos antigos de sua carreira. Desde então o grupo norte americano de hard rock tem se apresentado executando apenas músicas de seus quatro primeiros álbuns (até mesmo “Love is for Suckers”, de 1987, ficou de fora). O cantor, no entanto, prepara nos dias atuais, o lançamento de um novo álbum solo.

Os casos de The Who e Twisted Sister elucidam claramente uma visão mercadológica estática da música. Parecem se prender a uma fórmula explorada há 20 anos, milhões de discos vendidos, sucessos em rádios, em TV. A realidade cultural mudou há muito tempo. Nomes decanos como Paul Mc Cartney, David Gilmour, Deep Purple, Eric Clapton, Judas Priest, Scorpions, parecem se preocupar mais com a produção artística. Viveram sua vida fazendo música, criando, e continuam. Alguém pode alegar que são artistas milionários, que não precisam mais “vender” seu trabalho, além do que seus shows possam representar o equilíbrio financeiro de suas carreiras. Mas outros grupos como UFO, Accept,  Uriah Heep, ZZ Top não estão exatamente nessa família de ricas bandas, mas continuam sua jornada de criar novos trabalhos, se adaptando aos (já não tão) novos costumes de consumir música. Estamos obviamente falando do mainstream musical, porque o cenário underground é um outro universo.

Alguns outros exemplos, que se encontram entre os nomes top do show bussines do rock and roll, como Kiss, Iron Maiden, Metallica, U2, além de continuarem a vender álbuns (na proporção do consumo) e ter seus shows entre os mais caros do planeta, ainda são empresariados por gente que soube associar seus nomes a outras facetas comerciais além-música, como bebidas, cinema, moda, etc.


A proposição aqui é a questão do músico não aposentar seu desejo de continuar compondo, produzindo. Podem sim ter seus lucros a partir de venda de seu trabalho em forma digital (Spotify, ITunes, Amazon.com, etc) ou com uma rotina não tão constante de shows, mas o amor à arte de criação parece não desaparecer. Formações monstruosas como Led Zeppelin, Pink Floyd, Black Sabbath e Rush (ambos em encerramento de carreira), ao que parece não vão mais produzir material inédito. Mas seus integrantes, em seus diversos voos solos, continuarão. Pois a arte da composição é um elemento enraizado na alma de quem se mete a fazer música. Ou, pelo menos, na da grande maioria.

sábado, 7 de maio de 2016

Axl no AC/DC - O fiasco que se transformou numa surpreendente união


O papo agora é sobre Axl Rose. O cara foi sem dúvida uma revolução do rock na virada dos 80 pros 90. "Apetite For Destruction" será sempre um dos melhores discos de estreia (e também do rock) da história do mundo rock and roll. Aí veio a fama, as vendas, o estrelado e o Guns se diluiu. Slash, o grande pilar fez outras coisas com outras bandas, e uma formação frankstein do Guns andou perambulando por aí. Um disco muito comentado chamado "Chinese Democracy", que durou 20 anos pra sair, no final se mostrou um grande engodo, em termos de composições. Quando tudo era só história, eis que uma reunião dos membros principais pos o Guns N' Roses de novo na mira da atenção do showbiz.

Comentários sobre uma reunião envolta a muitos dólares, desconfianças, rejeições. e eis que Mr. Rose reaparece cantando muito bem. Interpretando sua própria obra, mas de maneira madura e com performances rejuvenescidas. Parece que o cara encontrou uma zona de performances vocais que combina seu poder limitado com sua idade. E, não é que o cidadão mandou bem?

Então, eis que uma das maiores bandas de todos os tempos, 300 Terabytes de conteúdo acima de Guns, anuncia o afastamento de seu vocalista, Brian Johnson, ativo com a esquadra australiana desde 1980. E, não demorou pra boatos, fotos, flagrantes anunciarem que o americano Axl seria o novo vocalista. 

Fãs antigos, puristas, AC maniacs, regurgitando manifestações contra esse encontro. Gente falando que era uma jogada de marketing, unir um monstro do rock a um vocalista há tempos no ostracismo, mas que detém um holofote eterno no cenário mundial da música rock.

Claro que achei um absurdo. São escolas diferentes. Mas o mundo  da música é muito surpreendente. E não é que funcionou? Pelos primeiros vídeos divulgados algumas músicas ficaram muito boas na voz do cantor do Guns. Acho que, nós velhos e tradicionais consumidores do modelo definido das grandes bandas, às vezes somos muito radicais no sentido de mudanças, no sentido de alterar um modelo forjado há muitas décadas. E deixamos de enxergar que a qualidade final de alguns arranjos pode ser boa, agradável e não ferir a qualidade conhecida de determinada banda.

Não me excluo dessa lista. AC/DC é lenda. Figura constante nos TOP 10 dos mais fervorosos cultuadores do universo rock and roll. Assim como torci meu nariz para essa nova formação da banda, mas rock and roll é atitude, inconformismo cultural e mente aberta pra qualquer novo formato de textura musical. Então posso afirmar, no alto do meu ávido purismo clássico aos formatos rock já forjados até hoje, que fico contente com a performance de Axl junto ao AC (pelos parcos vídeos até agora do show de Portugal, em Maio de 2016). 

Esperava um desastre e me deparei com uma alegre surpresa. Axl, que há 8 meses estava morto no mundo do rock, ressurge com 2 gigantescas frentes. Volta a ser falado, volta a ser notícia. Mas o mais agradável de tudo, volta a ter, no mínimo um bom desempenho artístico, fazendo as vozes de forma complacente, de duas bandas eternamente históricas. Não vai ser pra sempre, Bon se foi, Brian se afasta por doença. Se a estrada do inferno da banda se mostra bem encaminhada, pelo menos que seja de forma marcante e rebelde. Como foi sempre o rock and roll do AC/DC.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O fim das grandes bandas: agora uma questão de tempo


Na história da música rock encontramos diversos casos em que o artista interrompeu precocemente sua trajetória, vindo a falecer com pouco tempo de carreira. Diversos e importantes nomes podem ser citados nesse contexto, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Keith Moon, Ronnie Van Zant, Brian Jones, Steve Ray Vaughan, Bon Scott, dentre outros. Alguns deles, por excesso de drogas ou álcool, outros por trágicos acidentes. Todos num momento em que suas obras estavam no topo. E podemos deixar nossa imaginação trabalhar para situarmos como estariam suas carreiras se hoje estivessem ainda vivos, e quanta música de qualidade poderia ter sido por eles produzida nas últimas décadas.

Mas também nos deparamos com artistas do rock que encontram seu fim em experiente estágio de idade. Foi assim com BB King, Alvin Lee, John Lord, Johnny Winter, Rich Wright, Dio, Jack Bruce, etc. Tais nomes produziram décadas de inesquecíveis discos e shows.

Mas, em dezembro de 2015, com a morte de Lemmy Kilmister, do Motorhead, nós amantes da música rock iniciamos uma fase com a qual sabíamos que começaria, mas não desejávamos que acontecesse: o fim de grandes bandas pela mortes de seus mentores. Mesmo que Lemmy tenha tido uma vida cercada de excessos, o que pode ter corroído por demais sua condição de saúde, sua passagem aos 70 anos veio para nos avisar que muitas bandas vão encerrar suas carreiras, que ficarão marcadas no tempo como tantas outras que tiveram sua trajetória concluída, como Beatles, Led Zeppelin, Cream, Free, Genesis, dentre outros monstros sagrados.

Nos próximos 10 ou 15 anos isso se repetirá com muita constância. Testemunharemos o enterro de bandas como Deep Purple, Rolling Stones, The Who, Judas Priest, Black Sabbath, AC/DC, Aerosmith, Rush, Scorpions, e outras, bem como de seus principais mentores. É a força to tempo atuante sobre uma arte que gera grupos com 40 e 50 anos de carreira. Algumas versões atuais (e discutíveis) enxertadas de membros novos (como o caso do atual Queen), poderão ainda assinar sua carreira com o nome de batismo da banda, mas isso já é outra história.


Sempre vai haver, dentre o público consumidor, aquela velha e eterna polêmica de que não existem mais grandes bandas geradas nos últimos anos, que a época gloriosa do rock acabou, o novo versus o antigo, etc. Mas a grande reflexão é sobre um fato inevitável: as bandas gigantes, com meio século de atividade, estarão mesmo se extinguindo, mas apenas no tocante da produção de novas músicas e shows. Porque sua obra nunca vai morrer. Se hoje um garoto de 13 anos descobre a obra de uma banda como Blue Cheer, Mountain, MC5, e por ela se apaixona, isso se repetirá pelas décadas vindouras. 

sábado, 2 de maio de 2015

Monster of Rock 2015 – um inesquecível e monstruoso espetáculo

(Crédito: Márcio Felício)

A última edição do festival  “Monsters of Rock” (a sexta realizada no Brasil), que aconteceu durante os dias 25 e 26 de Abril de 2015, em São Paulo (SP) não só se candidata a melhor concepção da história do festival no país, como pode tranquilamente se transformar num dos maiores acontecimentos na epopeia de apresentações internacionais em nosso território. Num ano em que festivais de grande apelo comercial e de mídia, como Lollapalooza e Rock in Rio, esta edição do Monsters já se transformou no maior acontecimento do rock do ano.

A exemplo da edição de 2013, a organização do festival repetiu a fórmula de dois dias seguidos, mas apostou num cast mais caro e mais chamativo. Além disso, conseguiu reunir quase toda a nata do que mais clássico existe do universo hard rock/heavy metal. Ozzy por si só já arrastaria milhares de expectadores, assim como Kiss. Mas talvez a ideia fosse mesmo fazer história. Então, em dois dias em que praticamente oitenta mil pessoas se fizeram presentes ao estacionamento do Anhembi (colado ao Sambódromo), gente de muitos cantos do país puderam se satisfazer com apresentações de várias tendências e estilos que atravessam décadas de musicalidade a serviço da música pesada.

Uma estrutura gigantesca, mesmo a preços “europeus”, serviu de berço para dezenas de milhares de fãs, que se fizeram unidos para vislumbrar grandes, decanas e emblemáticas bandas que despejaram clássicos e contundentes repertórios sobre palcos adornados de potências sonoras e luminosas, que são premissas mínimas de uma grande apoteose de rock ad roll.

O que relato aqui é o que vivenciei no domingo, 26 de março, numa tarde paulistana que foi generosa com os amantes da boa música pesada – um clima ameno, que revezava ácidas aparições de sol com nuvens refrescantes e uma constante ameaça de chuva, que não se atreveu a molhar rostos tão motivados.

Pouco depois do meio dia vem a banda nacional Dr. Phoebes para abrir o evento. De qualquer forma uma oportunidade inescapável de uma banda nacional mostrar seu trabalho. Mas faltou clímax. Faltou ambientação ao tipo de festival. Muita gente aplaudiu, mas convenhamos, talvez alguém com um som mais pesado e direto seria mais contundente.

Depois veio a Steel Panther. Bem profissionais e com boa postura de palco, a banda veio bem representada pela ótima performance vocal de Michael Starr, mas pecou em muitas coisas. Primeiro, brincadeiras ensaiadas e a constante exibição de seios femininos nos telões (e no palco). E muito “fuck off, fuck you everybody, fuck”, fuck de graça a todo momento. Boa levada no conjunto, mas vazio nas mensagens e putaria forçada. Muita banda nacional faria melhor nesse tempo/espaço.
Então o festival começa mesmo com o Malmsteen. Com um sol impiedoso na cara, o grupo entra com bons problemas de som no palco. A estratégia de manter um tecladista como vocalista principal funciona talvez para os comandos de Yngwie. Mas foi pouco. Além disso, o set escolhido privilegiou as performances acrobáticas e técnicas do sueco, o que, na maioria da apresentação, encheu bem o saco. Poderia ter sido mais contundente, pela ocasião e pelo público.

Mas, a próxima atração compensou. O Unisonic, comandando por Michael Kiske e Kai Hansen (pra muitos a grande dupla eterna do Helloween), veio e mandou um show com pegada, alegria e interação com o público. Claro que os números do Helloween fizeram o incêndio daquele meio de tarde, mas a performance de Kiske não teria como não deixar de ser louvada. Tons altos e fortes ecoaram por toda a plateia, fechando com músicas rápidas “March of Time“, “I Want Out” (ambas Helloween) e “Unisonic”.

A seguir, vem aquele que considero o ponto alto do festival. O que poderíamos considerar como um perfeito show de rock? Som de palco padrão FIFA, set list irrepreensível, alegria estampada nas faces dos músicos, interação com o público, iluminação e pegada de palco, execução simétrica das músicas? Tudo funcionou 100% e o Accept conquistou o público com segurança, domínio do show e tradição ao heavy metal clássico da banda, mesclando sucessos do passado com material dos três últimos (e excelentes)  álbuns. Pra cair qualquer queixo e deixar as milhares de pessoas na assistência atônitas por tão ímpar exibição. Pra guardar em nossa metálica memória.

A seguir, seria a vez do Manowar tentar mostrar ao Brasil que poderia apagar a fatídica apresentação no Credicard Hall (SP) em 2010, onde privilegiou material mais novo e frustrou a maioria de seu público. Mas, o que prometia ser uma grande redenção esbarrou infelizmente no quesito estrutura sonora de palco. Não sei se, pelo líder da banda ser Joey de Maio, o som de seu baixo se mostrou muito alto, o que danificou a audição da guitarra. O set foi perfeito, entremeando sons antigos e novos. Até enfiaram Robertinho do Recife durante a “Metal Daze” pra fazer alguns pontinhos com o público. Talvez um nome mais forte na cena metal, funcionaria melhor, como Eduardo Ardanuy por exemplo. Mas as falhas continuaram. Em seu maior clássico “Batlle Hymns”, o grande solo de guitarra simplesmente sumiu na audição e um erro na condução do baixo, fez a pausa vocal se comprometer. O grande destaque do show foi Eric Adams, sempre preciso e forte em suas partes.

Depois era a vez do Judas, com o set esperado e conhecido desde a noite anterior (quando também se apresentou antes do headliner Ozzy). Sem muitas surpresas, a banda mandou seu set pesado, bem definido e revisitando diversas fases da carreira, incluindo cinco temas do último disco de estúdio. Halford , no auge de seus 63 anos, não mostrou falhas na potência e mandou bem em sons com notas impiedosas, tanto que “Painkiller” foi uma das últimas.

E pra encerrar tão fantástica edição veio o Kiss. O que dizer do Kiss. Sempre competentes, mas que trazem consigo o perfeito conceito de show. Não é apenas apresentação musical. É um desfile de grandes clássicos do hard rock dos 70/80, emoldurados pelo carisma história de Paul e Gene, mais o grande e fundamental apelo visual/estético da apresentação. Músicos que voam ou se elevam pelo palco, lasers e iluminação que exibem um conceito visual que encantaria gente que nem mesmo gosta de rock. É, sem ser literal, um espetáculo sonoro e visual. E para aqueles que sintonizam apenas na música, poderiam fechar os olhos e se incorporar praticamente os “Alive I” e “II”. Encerramento perfeito para um dia perfeito de hard rock e heavy metal na capital paulista. Uma noite que entrou para história, tanto do festival “Monsters of Rock”, como para toda epopeia de shows de música pesada no país.


O saldo, mais que maravilhoso, aponta para futuras edições que mostram poder abrigar shows dos maiores headliners do planeta, no quesito música pesada. Gigantes como Maiden, Metallica e AC/DC podem tranquilamente ocupar tal posto. “Monsters of Rock 2015”, quando um cast bem definido encontra uma estrutura de som irrepreensível e que abraça o público com serviços básicos de primeira linha como alimentação, segurança e higiene, é sinal de reconhecido sucesso. Que venham novas edições nos anos seguintes, repetindo esta fórmula. Mas por favor, reprojetem os preços dos insumos, porque, diferente das apresentações sobre o palco, foram um verdadeiro estupro financeiro.

domingo, 15 de março de 2015

O que existe entre o underground e o mainstream?

Tem três visões bem definidas a cerca dos padrões mercadológicos das bandas de rock, até mesmo em nível mundial. Mesmo nesta atual era onde praticamente não se vende mais discos, artistas consagrados mantém suas carreiras em padrões milionários por conta de grandes shows lotados e pela presença constante nas grandes mídias. Nomes como AC/DC, Metallica, Paul McCartney, Iron Maiden, Rolling Stones, Kiss, U2, Pearl Jam,  Roger Waters e alguns outros afortunados arrastam milhões de pessoas para suas apresentações, dos mais variados níveis de faixas etárias. Além disso, não é raro nos depararmos com suas apresentações em canais de televisão (mesmo em TV Aberta). E não tem muitos problemas para se acertarem com gravadoras.

Do outro lado da moeda existe o que chamamos de cena underground. Bandas que normalmente não recebem um centavo para mostrar seu trabalho ao público. Gravam e produzem seus shows por conta própria. Fazem por amor e muitas vezes sem nenhuma expectativa de se estabelecerem em padrões profissionais da música. Não raramente se escorando na ideologia para manter sua arte. Bandas de metal extremo (thrash, death, black metal) ou punk/hardcore ou até mesmo de white metal, tocando em festivais religiosos. Tais artistas dificilmente conseguem contratos com algum selo (mesmo que minúsculo) ou com renomados produtores e agentes de shows.

E ainda poderíamos citar o mercado das bandas cover, que reproduzem músicas de artistas consagrados, tocando na noite (em bares ou casas de shows) em troca de cachês irrisórios, mas ainda assim tendo satisfação por executar temas que gostam e se fazerem conhecidos na cena local onde atual.

Mas como poderíamos classificar nomes como Angra, Dr. Sin, Ratos de Porão, Blues Etílicos, Cachorro Grande, Made in Brazil ou mesmo bandas gringas como Machine Head, Hammerfall, Deicide, Sonata Arctica e Destruction (para dar uma variada nos segmentos)? As vendas de seus álbuns são insignificantes perante os medalhões lá de cima. A assistência média de seus shows se situa na casa de 1.000 a 5.000 expectadores. Mas elas já estão há muito tempo longe do underground. Existe um padrão mínimo de produção de seus shows em termos de estrutura. E (salvo pouquíssimas exceções) nunca aparecem em canais de mídia de massa, apenas em veículos especializados (sites, revistas). Nem extremamente populares, nem underground. Seriam elas da classe média do mercado musical?  Ou poderíamos dividir o underground entre duas categorias: daqueles que recebem por sua música e daqueles que a executam por prazer e ideologia? Teríamos o underground pobre e o rico?

Fica a dica para reflexão, para aqueles que acompanham a cena contemporânea do rock, que vive em constante mutação, do ponto de vista mercadológico.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Há 30 anos o primeiro Rock in Rio vinha para mudar o rock no país


Em janeiro próximo (2015) vão se completar 30 anos da primeira edição do festival “Rock in Rio“, que aconteceu na capital carioca entre 11 e 20 de janeiro de 1985. Logo aparecerão dezenas de matérias e artigos, nas mídias oficiais e amadoras sobre tal comemoração, então não gostaria de ter nesse (breve) relato os dados apenas informativos. Quem naquela época começava a respirar o rock no Brasil sabia das galácticas dificuldades de se ter acesso a bandas e informações. O Brasil estava se desvencilhando de um panorama político comandado por quase duas décadas de chumbo, onde a liberdade artística (em qualquer área) era controlada com rigor pelo poder militar. O pop-rock brasileiro começava a frequentar rádios e programas de TV, em nomes como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e asseclas. O rock-bruto e prog-rock de grupos da década anterior passavam como meros desconhecidos do grande público (Secos, O Terço, Made in Brazil, Casa das Máquinas, Som Nosso, etc), relegado apenas a afortunados que tinham contato com aquela cena.

No segundo semestre de 1984, a senhora Rede Globo anunciava um grande festival de rock no país, e estampava em seus intervalos comerciais gente como Queen, Iron Maiden, Scorpions, Yes, AC/DC, Ozzy. Era um sonho, algo surreal para garotos que, como eu, começavam a consumir aquelas bandas. Algumas publicações enxertavam as bancas de revistas com biografias e matérias de tais grupos, alimentando ainda mais o conhecimento e ansiedade daquela geração de rockers, que se recusou a aceitar que o pop-rock nacional tão em voga era o que melhor o mundo do entretenimento podia lhes oferecer.



Uma das características que gerou polêmica, revolta e gozação foi o fato de que, um festival que levava o termo “rock” no nome, trazia em seu cast artistas de música pop, regional e MPB, característica essa que se repetiu nas edições que ocorreram nos próximos trinta anos. Quando adolescente sentia-se a revolta de ver nomes como Erasmo Carlos, Eduardo Dusek, Alceu Valença, Elba Ramalho e até mesmo artistas internacionais como All Jarreou, James Taylor e Nina Hagen. 

Hoje, malhados com a sabedoria do tempo, vimos que aquilo sempre foi uma estratégia comercial, que, mesmo aborrecendo até hoje a geração de jovens rockers, permitiu que o Brasil recebesse gigantescas formações do rock mundial, entre rock clássico, hard rock e heavy metal.
Após a realização desse festival, o país, aliado a uma brisa fresca de democracia que se respirava em toda parte, passou a ser rota internacional de médias e grandes bandas. Centenas de discos (antigos e novos) foram lançados no mercado fonográfico local. Milhares de novos grupos foram formados, inspirados pela força de exposição daqueles shows. Alguns podem discordar, mas o rock tupiniquim era um antes do Rock in Rio e foi outro depois.



A Rede Globo transmitiu quase todos os shows, coisa rara se imaginarmos os padrões popularescos de hoje em dia. Ver um Iron Maiden no ápice da “World Slavery Tour”, um Queen que reinava no showbiss há muitos anos, um Ozzy (que a despeito da condição física desfavorável) com seu sempre fantástico repertório, um Scorpions totalmente desconhecido por aqui, mas que realizou shows enérgicos e inesquecíveis, o Whitesnake, que veio substituindo o Def Leppard (pelo acidente com seu baterista, que lhe custou um braço), fez apresentações memoráveis e um AC/DC que sempre conquistou qualquer público com seu hard visceral, foram momentos que inspiraram toda uma geração e trouxeram mudanças na orientação e aceitação da música rock no país.




Era uma época de ingenuidade, sonhos, ideologia para aquela geração. Anos depois, muitas bandas que se formaram naquela época varreram o mundo. Várias outras edições ocorreram, sempre trazendo os nomes mais bem sucedidos de suas épocas, mas quem vivenciou aqueles dez dias, mesmo aqueles que não puderam estar presentes na Cidade do Rock, construída especialmente para evento, pode atestar o impacto e a importância de tal evento no desenvolver de sua paixão pela arte do rock, seja como consumidor, colecionador, produtor ou músico.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Covers versus Autoral

    Uma discussão que sempre rodeia consumidores de rock e músicos que o produzem é relacionada ao perfil de repertório que as bandas devem apresentar em seus shows. Muitas bandas se recusam a fazer covers por pensar que não existe nada mais importante do que mostrar seu trabalho autoral. Outras apenas reproduzem músicas de outras bandas, não se importando muito com composições próprias. Este tipo de divergência existe desde que o rock nasceu. Grupos seminais como Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Deep Purple tocavam covers quando davam seus primeiros passos no mundo da música. Através das gerações, bandas iniciaram mostrando-se para o público as melodias de músicas de artistas invariavelmente já consagrados. No Brasil e em Rio Preto, onde a cena do rock puro (esqueçamos o pop-rock) vive às margens da mídia e das grandes produções artísticas, seja no mercado de shows e fonográfico, essas opções se tornam uma escolha necessária quando o objetivo é sobreviver da música.
       
      Não existe um lado correto, ou um lado menos respeitável ou ideologicamente louvável. O músico em geral adoraria tocar 15 músicas próprias de sua banda durante uma apresentação, mas isso depende para que tipo de público ele está se apresentando. Bares-rock, onde o perfil do consumidor geralmente é daquele fã de hits de rock, que talvez mal conheça uma segunda ou terceira música de uma grande banda, está consumindo, pagando e gastando para ouvir as músicas (hits) que gosta. O proprietário do local vai mantê-lo funcionando com a constância desse tipo de público e vai continuar querendo que o artista que ali se apresente execute os temas que sua clientela espera. Este artista, para ter espaço e continuar a receber pelo seu trabalho de ensaiar, se estruturar e executar a música ao vivo, tem que levar os tão desejados covers para este tipo de fã.
    
    É claro que, muito consumidores de rock também tem aquele lado cult de querer conhecer as músicas próprias da banda, conhecer suas letras, suas passagens melódicas, seus arranjos, suas performances. Para este tipo de fã, os grandes hits das grandes bandas do mundo são consumidos em casa, em seu carro, em seu celular. Esse tipo de repertório é visto com mais frequência em festivais de bandas, onde quando não existe exclusividade no set autoral, existe uma mescla com covers. Isso é bem comum. Quando ouvimos pela primeira vez um disco de músicas inéditas de uma veterana banda, elas não soam accessíveis ou familiares de imediato. E estamos falando de nossas bandas favoritas, experientes, com 20, 30 ou 40 anos de carreira, com 15 discos lançados, e falando de música (bem) produzida e mixada, normalmente exalando o mais perfeito nível sonoro. Imagine a reação ao ouvir uma pela primeira vez, música própria, de uma banda underground e ao vivo.
    
      Outro detalhe a se considerar é que, mesmo para uma banda que privilegia a execução de covers, existe a dificuldade de estar entrosada e pronta, com muito trabalho em ensaio, para que a reprodução seja tão perfeita, ou no mínimo parecida, com a original. E, que os músicos que executam esses covers também têm o prazer de tocá-los ao vivo. Afinal, eles são tão fãs de rock quanto os mais diversos perfis de fãs que vão vê-los tocar ao vivo. De certa forma, paira sobre as pessoas que gostam de rock a reflexão acerca da carreira de uma banda. Tocar covers em bares seria definir que a carreira de uma banda se resume a esse circuito? A falta de um disco de músicas autorais para divulgação em âmbito nacional representa um processo de estagnação no crescimento musical e profissional de um artista (banda)? Um modelo híbrido de tratar o repertório de uma banda, agradando todo tipo de público, é a saída para se pensar num futuro na cena? O interesse popular por um ou por outro tipo de repertório muda de geração para geração?

       
    As respostas para essas perguntas talvez repousem com nosso bom e velho amigo tempo. O sucesso ou encerramento de uma banda pode nos ajudar a pensar nessas respostas, afinal, num momento em que o mundo não quer pagar mais para ouvir música, que futuro pode ter um artista autoral fora do circuito underground?


* Trecho extraído do livro "A HISTÓRIA DO ROCK DE RIO PRETO", 856 páginas, de Júlio Verdi, lançado em 2013. Mais informações em: http://historia-rock-rp.blogspot.com/